11.10.08

Um paradoxo de perder a cabeça

Sobre trovões e relâmpagos, caminhava lentamente assobiando uma melodia quase hipnotizante. Rodopiando seu guarda-chuva, parecia distante de mais para se quer se preocupar com alguma coisa. Era ainda o primeiro de Outubro e as folhas caiam das árvores chicoteadas pelo vento frio e rabugento.


A noite aproximava-se veloz e sorrateira camuflada no espesso nevoeiro que se fazia sentir na enorme velha vila.


De barba longa e bata castanha, só parava de caminhar para limpar as embaciadas lentes de seus óculos redondos. Podia mesmo assobiar durante horas a mesma velha e hipnótica melodia, que transmitia uma sensação de paz interior e calma erudita.


Se ao assobiar tal melodia flutuava sobre as grandes montanhas da Nova Zelândia, o mesmo não aconteceu ao ouvir o oco badalar do relógio da igreja. Sua expressão alegre e descontraída, morria com cada badalada e ao sexto oco toque sua cara não apresentava já quaisqueres sinais de vida. Narinas dilatadas, palitos nos olhos e boca aberta, correu para casa como um louco corre para a desgraça.


"-Já chegou! Já chegou!", dizia com lágrimas no canto dos olhos e enrolado sobre si mesmo num canto da sua pequena casa húmida. Ela era assídua e aparecia sempre na forma de um vazio avassalador.

"-Que queres Zé? Deixa-me!"

"-Buaaaaahahaa! Quero que me cortes em três pedaços..."

"-Não!! Deixa-me em paz! Aaaaaaarrrrggghhrrrgrh", gritava puxando os longos cabelos.

Pontual e escondida no ventre da noite ela sempre voltava.

Xico sofria de Síndrome de Dupla Personalidade, o qual se agravava com a chegada do escuro da noite. Seu irmão era um indivíduo bem aparentado e licenciado em economia. Era ele que cuidava de Xico desde os seus 5 anos, altura em que os seus pais foram brutalmente assasinados na igreja da vila por um sociopata com uma pá. Quando a patologia de Xico não dava sinais de melhorias, seu irmão fazia uso do seu estatuto de Presidente da Câmara Municipal para se ausentarem juntos numas férias relaxantes ao Serro do Alguidar.

As semanas passavam e não havia sinais de melhoria de Xico. Este tornava-se mais e mais violento, agressivo e ansioso com o passar dos dias, das horas, minutos e segundos.
1.º de Dezembro de 1804:
Vindos da velha casa dos irmãos Conceição, Xico e Zé, três tiros se ouviram...e se os tiros se ouviram, já das facadas e cortes silenciosos não se pode dizer o mesmo. Os vizinhos não se atreveram a entrar lá em casa, mas o valente xerife contactado pelo povoamento teve a coragem de um leão e a astúcia de uma raposa quando subiu silenciosamente as escadas, pé-ante-pé, conduzido por sua arma, que lhe indicava a direção a tomar. Caminhou então lentamente e de palitos nos olhos até à fechadura do quarto para averiguar aquilo que se passara. De olho encostado à fechadura e chapéu na mão, gritou alto e gemendo de dor, alucinado pela desconfortável sensação de sangue a escorrer-lhe pela rugosa face abaixo.
Lá fora todos aguardavam petrificados com os gritos vindos do andar de cima da pequena casa. Dizia a vizinha Joaquina para o ti Manel dos alforges:
"-Esta gentinha maluca ainda nos há-de mat", quando intrerrompida por um grande estrondo da porta da frente da casa pequena, sai Zé de faca na mão e cabeça na outra, rindo à gargalhada e repetindo convictamente:
"-Ela só chegou agora porque teve guardada no armário, guardada no armário, debaixo da cama que nem uma leoa". Xico, agora de barba longa e bata castanha-ensanguentada, perdera realmente a cabeça e matara seu irmão Zé.

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